A Festa (da Insignificância) ou ‘a dança policromática’ no TNSJ

Há um naipe de bailarinos que se espalha pela assistência a cumprimentar gente conhecida. Dois ou três estão à conversa, no lado do esquerdo, encostados ao palco diante da primeira fila da plateia e outros que estão sentados no lado direito, por baixo do arco do proscénio. Uma espécie de comissão de boas-vindas informal que acolhe o público ainda com as luzes da sala na plenitude da luminosidade.

O palco, por seu turno, está dotado de uma bateria e de estantes musicais, bem como de lâmpadas fluorescentes verde-alface e projectores amarelos. Num plano superior estão dois suportes de luzes de cada um dos lados do palco.

Dois bailarinos aventuram-se no linóleo e executam movimentos suaves, enquanto ainda há gente a entrar no auditório do Teatro Nacional S. João e a acomodar-se. Os que estão sentados no estrado investem-se do estatuto temporário de bailarinos-observadores enquanto não entram em cena, que o mesmo é dizer, em dança.

créditos: José Alfredo
créditos: José Alfredo

E se esta composição coreográfica de Paulo Ribeiro tem como repto criativo a celebração da dança no estado sólido, líquido, e gasoso… da matéria-prima chamada corpo(s), a epifania resulta de todo. Pelo que se percebe, talvez até nem agrade a todas as camadas de público, há exigências de um meio mais alternativo que considera o registo pouco ‘in’ para os dias que correm, pelo que se percebe no final.

O guarda-roupa (José António Tenente), simples na forma, estabelece contrapontos na textura cromática do colectivo. E a música ecoa saborosa, especialmente a de Tom Zé e aquela que os músicos Miquel Bernat e Miguel Moreira (Drumming – Grupo de Percussão) tocam ao vivo e, portanto, in loco.

Num momento inicial os intérpretes estão agrupados em dois ou três, com apenas um solitário a registar. Começam a gingar-se de forma mais ou menos frenética. A compor a paleta, os projectores banham os bailarinos com um colorido próprio de um pacote de smarties. O palco está pintalgado de cores numa diversidade e mescla incomum. Os bailarinos parecem estar a ‘pinchar’ sentados, bizarramente sentados.

Em seguida praticam movimentos sincopados, com rotações da cabeça e do corpo e entram em fase de despojamento das cadeiras. O ritmo passa da música brasileira para a dance-music, num pleno colectivo de exibição corpórea num registo musical que agora é quase o do Saturday Night Fever.

E mais adiante vai subsistir em duas fases uma motivação feita impulso pedagógico da dança. Teresa Silva, uma das bailarinas, investe-se dessa condição de formadora do público através de exercícios respiratórios, a assistência acede a colaborar neste pequeno exercício e ‘a maestrina corporal’ dirige os trabalhos com alguma graça, um sentido de humor bem patente. Segue-se um instante de break-dance e uma nuance para uma toada carnal, marcada por um erotismo insinuante, num enquadramento cromático que pela sua diversidade bem poderia ser o de um qualquer mercado magrebino.

créditos: José Alfredo
créditos: José Alfredo

Transparecem as emoções e as expressões sensoriais e a música transfigura-se para uma espécie de valsa lenta para os bailarinos. A expressividade corpórea colectiva apresenta-se no auge. Juntam-se em pares à boca do palco e logo em seguida espreguiçam-se deliciosamente em solos, dançam ‘à capela’. Os músicos ditam em plena oralidade as ordens numéricas dos movimentos como se fossem treinadores num ginásio. Uma toada marcial em crescendo acentua-se com a marcação do strob.

A batida da bateria somada à guitarra resulta numa combinação histriónica, o que para os bailarinos passa a ser sinónimo de saltos elegantes e frenéticos. Recuperam as cadeiras. Teresa regressa de novo à condição de instrutora, numa sequência de recuperação do esforço de todos sem excepção, público incluído. É solicitada a colaboração dos espectadores e logo após a anuência destes executam-se rotações, exercícios com os ombros, de ilustração da música, e os arrepios (ouvem-se bombos inusitados no exterior). A plateia adere em uníssono e replica com fidelidade as instruções. O exercício pedagógico salda-se por um retumbante êxito.

A epifania finda com o quadro estético de melhor expressão em toda a peça: uma ilha de intérpretes que redunda num entrelaçado de corpos em demanda de síntese colectiva e identitária.

PS – Para quem quiser saber mais sobre o espectáculo, pode sempre pesquisar: http://www.pauloribeiro.com/a-festa-da-insignificacircncia.html

Texto: João Arezes

Fotos: José Alfredo

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