Há 4 globos preenchidos por uma luz sólida cuja incidência sobressai na dianteira a uma parede pintada a dois tons de azul, uma cobertura envidraçada e um banco corrido que nos remetem de imediato para uma estação de caminho-de-ferro. Num espaço contíguo, com um intervalo que lhe confere uma certa distância física, há uma ‘sala de espera’… para a entrada em cena dos actores, que durante uma parcela significativa do espectáculo se revezam aos pares.

Iremos perceber dentro em breve a dimensão espácio temporal para a qual nos conduz esta cenografia, a verdade é que existem momentos da acção que decorrem em casa(s) e há uma agilização cenográfica ligeira, para além da capacidade de abstracção do espectador, que no(s) coloca nos domicílio(s).

Créditos: Filipe Ferreira

Um diálogo entre um casal em défice de relacionamento afectivo (serão dois, um em Lisboa, em 1967 e outro em Antuérpia, em 2017) serve de ritual iniciático à peça. O conceito de normalidade e de infelicidade nas relações são atirados para a liça.

Anna Karénina, o prodigioso romance emblemático do realismo literário, da autoria de Tolstói, entra como chave analógica e nuclear da dramaturgia, enquanto ‘obra eleita’ pelos personagens, uma obra que lhes molda a(s) vida(s). Assim, a obra do escritor russo assume o papel dos carris e do comboio dramatúrgico em que desliza “Como Ela Morre”. A história dos dois casais, ‘cujas vidas se entrecruzam, serve como um pretexto representativo de uma releitura da obra e flui como uma dramaturgia paralela que se interpenetra com o romance literário que é a razão de ser da peça. E sim, para além do valor pedagógico de sedução à leitura desta obra de Tolstói (e quiçá das outras), desde logo se afirma como uma hipótese plausível para quem ainda não ousou entrar no universo de Anna Karénina, não fosse a morte ou desejo dela algo difícil de encarar.

Créditos: Filipe Ferreira

Há excertos marcantes da obra que são lidos pelos actores, algo impressivo em termos de marca do encenador Tiago Rodrigues (TNDM II), naquele propósito que se insinua como a peça enquanto um ensaio contínuo que por vezes entra em suspensão, como uma espécie de frame cinematográfico. E, por falar nisso, apesar da sua singeleza, tracejamos na memória aquele momento de singeleza estética em que a máquina de fazer neve banha o palco e faz com que os papéis esvoacem.

Os contributos criativos para esta ‘micro-Babel’ que vemos em cena – o espectáculo é falado em português, francês e flamengo, com legendagem em português e inglês – resultam do debate dos intérpretes com o encenador. Assim, todos sentados à mesa de trabalho, ‘a partir pedra’, os acréscimos, as supressões e as correcções dramatúrgicas são parcelas do domínio da autoria que é pertença de Frank Vercruyssen, Isabel Abreu, Jolente de Keersmaeker e Pedro Gil, enquanto actores, bem como de Tiago Rodrigues, o maestro de cena.

No rodapé da peça, apesar da insinuante carga dramática do final do romance que todos (re)conhecemos (com a subtileza do apagar da vela que alude ao desaparecimento físico de Anna), o casamento artístico entre Portugal e a Flandres, que o mesmo é dizer, entre a parceria de produção entre o Teatro Nacional D. Maria II os tg STAN, de Antuérpia, está de boa saúde, ao contrário das relações conjugais que os actores interpretam no espectáculo.

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